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Blog EntryNov 10, '08 12:48 PM
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Salvador é uma cidade devastada pela alegria



Foto Marcio Scavone

por Caroline Vieira
Didi caminha às pressas pelo Museu de Arte Moderna da Bahia, ocupado com a montagem de duas exposições para o Festival Agosto da Fotografia. Trajando camisa branca, como manda a tradição baiana nas sextas-feiras, e usando óculos de aro pesado, acessório que já virou sua marca registrada, o curador da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Diógenes Moura, não esconde a sua preocupação quando o assunto é a memória e a história desta cidade. Nascido em Recife, mas criado em Salvador, onde passou a sua adolescência, o escritor, jornalista e roteirista despertou o seu interesse pela fotografia quando viajava como esportista. Entre idas e vindas, fixou moradia em São Paulo. Em 1992 foi para a Pinacoteca sob a coordenação do ex-diretor Emanuel Araújo. Juntos abriram o espaço do Museu para a arte fotográfica, organizando exposições importantes como a de Thomas Frakas, a de Claudia Andujar e Mario Cravo Neto. Nesta entrevista, Diógenes fala sobre as dificuldades de inserção da Bahia no panorama nacional e internacional de mostras fotográficas e do seu desapontamento com a falta de receptividade dos baianos. Desabafou sobre a necessidade do investimento do capital privado e questionou a dependência dos artistas aos editais. “Precisa-se oxigenar o olhar da Bahia, por isso a necessidade de trazer gente de fora”.Entre uma montagem e outra, Didi, arranja tempo para finalizar o seu mais recente livro, Ficção Interrompida – Uma caixa de curtas.

Como você vê a divulgação da fotografia hoje no Brasil?

A fotografia vem aparecendo nos grandes centros como uma das mais significativas linguagens do mundo contemporâneo, justamente porque contextualiza, em sua grande maioria, os anseios da história e da memória de um povo. A partir dos anos de 1990, a fotografia passou a ser vista, definitivamente, como obra de arte. Mas, o que eu pude sentir, aqui em Salvador - nesta experiência como curador convidado para o Festival Agosto da Fotografia – é uma relação ou muito tímida ou realmente de desinteresse dos meios de comunicação. Para você ter uma idéia, comparando duas cidades próximas que são Salvador e Recife, onde estive o ano passado, durante a Semana da Fotografia, todos os dias foram produzidas entrevistas com os palestrantes e artistas expositores grandes espaços nos segundos cadernos. Uma das exposições que abrimos no ICBA, durante o Agosto, e que reunia As Quatro Gerações Chambi, sequer teve uma foto legenda nos jornais. Martin Chambi, o fotógrafo principal do núcleo é considerado um dos maiores nomes da fotografia contemporânea e ninguém foi informado sobre o fato de um artista que fala da ancestralidade do povo peruano como ninguém. Na noite de abertura havia cerca de 25 pessoas. Isso é uma calamidade. Acho que há desinteresse e desconhecimento numa cidade justamente tão significativa para a história da fotografia no Brasil.


Então, em sua opinião, as exposições em Salvador têm pouca receptividade?

A impressão que eu tenho de Salvador é uma cidade devastada pela “alegria”. Você pode fazer tudo, lutar contra um esquema onde a impressão que temos é a de que todo mundo está contra você, parar o seu trabalho como eu parei durante dez dias consecutivos na Pinacoteca; se dedicar mais de um ano ao projeto; manter contatos com fotógrafos que liberaram os royalties das obras para viajar com seguro insignificante; ter a compreensão do diretor da Pinacoteca, Marcelo Araújo, de abraçar o projeto, porque se a Pinacoteca não tivesse concordado, não poderia ser feita a parceria e trazer sete exposições, reunir 10 artistas, além de Pierre Verger, que foi uma parceria com a Fundação homônima. A sensação que eu tenho é a de não ter provocado nenhum tipo de reflexão para a cidade. Será que na próxima edição teremos que alugar Naomi Campbel para “dar visibilidade internacional” para o Agosto, como foi feito no último Carnaval? Miss Campbel subiu no trio elétrico para “simbolizar” uma harmonia entre as nossas questões de perda de memória e as questões afro-descendentes. Foi isso? Cicatrizes não se curam com “simbolismos”.

Um trabalho de Educação?

Sim, longuíssimo. Mas, sobretudo, a proposta de um outro olhar. Um olhar que cruze geografias, que agregue valores, um olhar que faça com que a alma de cada um de nós se aproxime das possibilidades que estão no mundo que nos rodeia. Quem viveu em Salvador nos anos de 1970, até a segunda metade dos anos de 1980, sabe do que estou falando. Não se trata de saudosismo. Trata-se de história e memória. Falo de passado porque esse passado será o nosso futuro. Mas o que fazer diante de uma população cujo desejo da sua grande maioria é poder pagar o carnê para ter um abadá? O que faremos com as novas gerações? Seremos apenas filhos do Carnaval? E os outros? Onde está a fotografia dos mais de 50% de miséria que vive em torno do Pelourinho?

A fotógrafa Claudia Andujar, conhecida pelo longo trabalho com os Yanomamis, esteve aqui e poucas pessoas foram prestigiar a sua exposição no MAM.

A Claudia Andujar tem um trabalho espetacular. Conversamos depois que ela voltou para São Paulo. Ela me disse que estava completamente emocionada com Salvador. Perguntei por quê você está emocionada com Salvador? Ela respondeu: porque é um dos poucos lugares aonde eu ainda senti emoção no Brasil. Perguntei novamente: você viaja por onde no Brasil? Entendeu a questão? Ela se emocionou com a manifestação pública, com a manifestação da cidade que é o poder que Salvador tem, esse “ponto luminoso”, como diria Paul Celan, indescritível. Mas e daí? Isso Basta? Não conheço ninguém que vá para o Rio de Janeiro e queira sair carioca. Ao contrário disso, todas as pessoas que vem para Salvador querem voltar baianas. Entendeu? Claudia Andujar é de origem Húngara, tem uma guerra em sua história, se apaixonou por uma cidade, por uma população. Ela não viu violência porque ficou cercada de pessoas, visitou apenas lugares seguros. Ou seja, viu uma “cidade protegida” que não é a verdadeira. Porque então não falamos a verdade? Ela viu a cidade de fora para dentro. Isso que aconteceu com a Claudia é o que acontece com a maioria dos que visitam Salvador. Existe um filme, Em Direção ao Sul, que se passa no Haiti, em 1990 (direção de Laurent Cantet) e que fala sobre isso. Quem conhece Claudia Andujar? Quem sabe quem é a família Chambi? Quem viu o olhar esfacelado e sem lua dos homeless de Ricardo Alcaide? Quem olhou direito para os travestis de Lucia Guanaes, na belíssima e quase sacra montagem do MAM, no Solar do Unhão? Quem? Oito, dez, quinze pessoas? É muito pouco para o que representamos.

Poderia falar um pouco do seu trabalho como curador?

È trabalho duro. Todo profissional para ser bom tem que ter uma vida por trás disso: um bom engenheiro; um bom dentista, um bom escritor, um bom marceneiro; um bom ator. Todos eles, e todos nós temos uma história. Eu saberia olhar muito menos se não tivesse vivido 17 anos na Liberdade; pegado o último ônibus da linha 8, na Barroquinha, durante noites seguidas; atravessado o mercado do Japão tendo que levantar a calça boca-de-sino porque o sangue dos bichos pendurados para serem vendidos escorriam pelo chão como uma abstração; ter aplaudido o pôr-do-sol no Porto da Barra e depois ter ganhado o mundo: da Rússia ao Marrocos; de Belém ao sertão de Pernambuco. É um trabalho de dedicação, de pesquisa, de encontros e de alguns desencontros (quando lidamos com artistas que acham a sua obra a coisa mais importante do mundo ou que sempre querem te apresentar um projeto “diferente”).

Você ganhou recentemente um prêmio de melhor curador do Brasil. Fale um pouco sobre isto.

Nunca trabalhei para ganhar prêmios. Mas foi um prazer e uma alegria, para mim e para a Pinacoteca, que também ganhou o prêmio de melhor espaço expositivo. E o prêmio não é só meu: é de todos os fotógrafos que estiveram e estão ao meu lado, com suas histórias, suas angústias, suas dores, seus prazeres e seus personagens que me fizeram e fazem entender cada vez mais que fotografia é, sobretudo, literatura.

Como você vê fotografia produzida, hoje, no Brasil?

Eu acho a fotografia brasileira sensacional. Acabei de vim de uma viagem longa pela Europa, e constatar, mais uma vez, que os fotógrafos brasileiros são mesmo muito bons. Carregam uma emoção especial e mais tranqüila no olhar, possuem um frescor que a Europa não tem mais. Sobre os Estados Unidos posso falar pouco porque conheço menos. Há uma certa crise na fotografia francesa, por exemplo. Eu não vi nada lá que me emocionasse tanto quanto uma exposição de Carlos Moreira; tanto quanto uma exposição de Mario Cravo Neto; tanto quanto a edição da fotografia de Pierre Verger que estou fazendo para o ano da França no Brasil; tanto quanto a série das prostitutas que Flávio Damm fez na Bahia, nos anos de 1960. E por aí vai. Existe um frescor fantástico na fotografia e nos fotógrafos brasileiros. O que não existe aqui é produção. Não existe produção no Brasil. Para se levar uma exposição de uma cidade para outra você tem, praticamente, que dar a sua vida. Essa questão do Agosto da Fotografia que me tirou a voz foi justamente por isto, porque é praticamente impossível um curador realizar um projeto com oito mostras numa cidade que trabalha com verba pública.

Nós temos bons fotógrafos na Bahia, não é mesmo?

Eu acho que a fotografia baiana é uma das grandes representações da fotografia do Brasil, com nomes e obras definitivas, mas que padece de dois problemas graves: primeiro da desunião que existe entre os fotógrafos, do ruído oral que é uma marca registrada na cidade e um tormento na vida de qualquer profissional. Segundo, porque como em todo o Brasil, não há um intercâmbio que possibilite nos aproximar da obra e da construção poética de cada um desses fotógrafos. São dois determinantes fatais.

Você prefere a fotografia documental?

Eu trabalho com muitas linguagens, inclusive com as linguagens experimentais. Gosto da fotografia que conta uma história. É um problema literário, como já falei. Por exemplo: existe uma fotografia de Pierre Verger que pode ser considerada uma dessas imagens eternas. Acho que é dos anos 60, e está na seleção que fiz para o Ano da França no Brasil, atualmente em fase de produção. Trata-se de uma imagem feita no frontispício da Santa Casa de Misericórdia, na entrada do Centro Histórico. Existe um menino no segundo plano e no primeiro, um personagem, um travesti, um homem vestido de mulher, uma coisa indefinida. Com uma máscara de careta. Então, é um corpo que você não sabe exatamente que sexo tem e não é apenas uma fotografia: é uma fotografia, é um filme, é um livro. Ou seja, é a vida de Verger diante da imagem e de si mesmo.

Como são selecionados os trabalhos para as exposições, por exemplo, na Pinacoteca? Nomes são privilegiados?

A Pinacoteca fez história justamente por isso, por não privilegiar tão exclusivamente nomes importantes. A história da fotografia na programação permanente da Pinacoteca teve início na pequena galeria da cafeteria e, a partir de 2000, passou a ocupar os vários espaços do museu. Trabalhamos com fotógrafos que fazem desde a primeira exposição até às leituras de obras, passando pelos trabalhos de artistas que estão na geração entre os 40 e 50 anos e que já têm um trabalho autoral definido. Não existe seleção como em um concurso, existe uma conversa, um longo “ínicio”, imagens que nos são mostradas e que se encaixam dentro de uma idéia, digamos assim, e da linguagem que o museu trabalha e que se integra com o seu público e com o universo das imagens.

Que nomes você elegeria na fotografia brasileira?

Todos os nomes para nós têm a sua importância. Por exemplo, Mario Cravo Neto fez a primeira exposição na cafeteria, lançando o Laroyé. Se não fosse um fotógrafo generoso como ele é, não teria feito num espaço que estava iniciando. Esse fato criou história dentro da Pinacoteca, na galeria da cafeteria do museu, que agora encerra um ciclo das exposições, depois de oito anos. Citar nomes é sempre muito caótico. Obviamente que realizamos algumas mostras inesquecíveis, como as de Claudia Andujar, Thomas Farkas, Boris Kossoy, German Lorca, Carlos Moreira e Adenor Gondin, fotógrafo baiano que fez uma exposição linda chamada Ytaylê Ogum. Acho que os grandes nomes são todos estes que continuam verdadeiros.

Você está montando alguma nova exposição?

Estamos sempre em processo de pesquisa e montagem: Vânia Toledo acaba de inaugurar o seu Diário de Bolsa – Instantâneos do Olhar, que permanecerá em cartaz até fim de outubro. Logo em seguida, exibiremos um tesouro: uma leitura na obra do fotógrafo Voltaire Fraga, um expoente da fotografia baiana a partir dos anos 40. O nosso recorte terá imagens feitas em Salvador e Cachoeira entre os anos de 1940 a 1960. Voltaire era um mestre em doçura e ancestralidade que, segunda sua família, muitas vezes pensou em incendiar seus negativos em praça pública por nunca ter sido reconhecido. Para 2009 temos o projeto França-Brasil, que reúne um núcleo histórico (Pierre Verger/Marcel Ghauterot/ Jean Manzon) e dialoga com a fotografia de mais três fotógrafos franceses: Bruno Barbey, Antoine D’Agata e Olivia Gay. O projeto se completa com o olhar brasileiro de Luiz Braga, Tiago Santana e Mauro Restiffe. O início de 2009 também terá Mario Cravo Neto ocupando todo o 4° andar da Estação Pinacoteca. Mas antes tiro férias e vou finalizar meu novo livro, Ficção Interrompida – Uma Caixa de Curtas.



Fonte: A Tarde

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